Era um domingo nublado, preguiçoso como todos os domingos, o ar tinha
cheiro de grama molhada e parecia difícil respirar, apesar da garoa o clima
estava quente e bem abafado, o suor era denso e dava aquela sensação
desconfortável de grude no corpo todo. Amarrei o cabelo num coque frouxo e
desengonçado, vesti meus jeans desbotados a velha camiseta dos Beatles e calcei
meu all star vermelho favorito, fui até a mercearia da esquina comprar um novo
maço de cigarros, tinha um de reserva mais na verdade, queria sair daquele
ambiente, daquela casa que mais parecia um hospício.
Uma gritaria que nunca tem fim, impossível colocar os pensamentos em
ordem, panelas que caem, o cachorro do vizinho que tenta pular o muro pra
atacar o gato, o motivo da quina do armário estar no lugar onde ela devidamente
deveria estar e acidentalmente continuar lá quando alguém resolve tropeçar, o
armário é surrado, afinal a culpa é totalmente dele de estar lá.
- Sofi, aonde você vai parecendo uma mendiga com esse tempo ruim?! Leva
um guarda-chuva porque só o que me falta é além de tudo alguém nessa maldita
casa ficar doente.
-Huhum.
Minha mãe não tem muito tato nas palavra, a não ser com o namorado dela,
é claro.
O atendente da mercearia é um senhor muito bacana, que não faz muitas perguntas,
mas, adora comentar das minhas camisetas:
-Beatles?! Bom, muito bom, mais gosto mesmo é do meu
"rasta-chinela". O de sempre?
- O de sempre (um maço de cigarros e um tablete de chiclete de canela).
A garoa começou a querer ser realmente uma chuva, resolvi então sentar
na banqueta da mercearia e pensar na vida, afinal lá estava bem mais tranquilo
do que o lugar que chamo de casa. Seu Tony, o atendente sempre fora simpático,
afinal quase nunca trocamos mais de dez palavras de uma só vez, e eu realmente
adoro pessoas que me deixam quieta.
Da onde eu estava sentada tinha a vista da casa de seu Tony, que era uma
continuação da mercearia, na onde eu acredito que era a sala tinha uma senhora,
de uns 60 anos, que deduzi ser a esposa de seu Tony, e do lado dela no
sofá, um rapaz, nas mãos tinha um livro, parecia alto, tinha a pele clara e o
cabelo bem preto. Não costumo fitar as pessoas, tenho receio de contato visual,
mas ele não estava me vendo, então não fazia diferença, mas acho que olhei
tempo demais porque quando dei por mim seu Tony estava me chamando.
-Dona Moça, Dona Mocinha?! (Seu Tony tem um pronome de tratamento bem
peculiar, apesar de sim, saber que meu nome é Sofi)
-MO CI NHA!
-Sim Seu Tony, desculpa.
-Veio passar uma temporada para fazer um curso.
-Quê?
-Meu sobrinho-neto, chegou faz alguns dias.
-A.(eu realmente devo ter ficado incrivelmente vermelha, na tonalidade
do meu tênis)
-Joaquim, JOAQUIM, vem cá meu filho.
Nesse momento eu quis correr debaixo de chuva mesmo, sempre fui muito
tímida, e extremante vergonhosa. O rapaz que estava perdido na leitura demorou
um pouco para se situar e perceber que alguém o chamava.
- Oi tio, desculpa, estava entretido.
Nada era mais lindo, NADA. Ele usava óculos, com uma armação meio
arredondada, uma pele clara que contrastava com seus cabelos pretos que faziam
ondas irregulares.
-Vem cá filho, faça companhia para Dona Mocinha até a chuva passar.
-Okay.
Ele levantou do sofá, ele era alto, não era magro, nem gordo, era grande
e vestia uma camiseta cinza clara com uma estampa de um sorriso, só um sorriso,
uma bermuda preta e um all star preto. Deixou o livro no braço do sofá e foi
até onde eu estava.
-Olá, Dona mocinha, é isso?!
Ele sorriu, e eu só queria correr dali.
-É, é, é... é Sofi.
-Sofi de Sofia?
-Sofi de Sofi mesmo, só Sofi.
-Olá só Sofi, Joaquim, só Joaquim.
Sorriu. Que sorriso,um sorriso meio de lado, meio desconfiado e ao mesmo tempo confiante.
Sorriu. Que sorriso,um sorriso meio de lado, meio desconfiado e ao mesmo tempo confiante.

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