Capitulo 2: Visita
Não sei se aquilo era pra me deixar mais desconfortável ou ele era assim
mesmo.
-Dona Mocinha agora pode aguardar a chuva batendo um papinho com alguém
da sua idade porque vou dar um oizinho pra minha Senhora que anda um pouco
adoentada. Fique à vontade.
-Obrigada Seu Tony, mas já estou indo.
Nessa hora a chuva ficou realmente pesada e começou a ventar muito, meu
cabelo desamarrou o que foi trágico, todo aquele cabelo cacheado e louro na
minha cara, o que deve ter sido bem engraçado porque o sobrinho de seu Tony riu
muito.
-Desculpa.
- Argh!
-Desculpa é que seu cabelo esta meio assustador.
-Imagino, mas o seu também não está o que podemos dizer de adequado.
-Você fala algo além de só Sofi, impressionante.
- Vai...
-Calma. Por favor, é só uma brincadeira.
Não sou acostumada a brincadeiras, mesmo no alto dos meus 20 anos.
-Cheguei na cidade a pouco, vim pra um curso avançado de filosofia da
universidade da região. E você, é daqui mesmo?
-Sim, moro nesse quarteirão. Filosofia?!
-Sim, é minha especialização. E você faz faculdade, tem idade pra isso
já?
-Tenho, mas não, não faço faculdade.
-Porque?
-A chuva está amenizando, tenho que ir.
Não queria explicar mais uma vez que minha família era contra meus
objetivos acadêmicos, queria ser escritora, tinha inúmeros contos inacabados,
história rascunhadas e também tinha um protótipo de livro do qual eu escrevi
para concorrer a uma bolsa em uma faculdade renomada, mas fui impedida pois
deveria ser alguém na vida, e não uma inventora de lorotas, como dizia minha
mãe.
Cheguei em casa com uma sensação estranha, quase nunca queria
conversar com alguém, mas dessa vez eu queria contar que conheci um cara
intrometido e bem tagarela.
Não, não tenho amigos, já tive, em todas as escolas das quais tive
que percorrer durante a minha infância e adolescência. Minha mãe me mudava de
escola pelo menos umas 3 vezes ao ano, ela sempre arranjava encrenca ou brigava
com algum dos meus diretores, causava grandes brigas, ia alcoolizada nas
reuniões, e achava que as escolas ficavam colocando "caraminholas" na
minha cabeça e incentivando a escrever lorotas.
Gordo estava deitado espreguiçadamente na minha cama, Gordo é um gato
velho que apareceu em casa a uns anos e briguei para que ele ficasse, pois,
minha mãe alega que ele só serve para soltar pelos e se esfregar nas pessoas.
Gordo é um gato simpático, não acreditem na minha mãe. Peguei meu caderno(ainda gosto de escrever em cadernos), meus professores falavam que eu deveria me
adequar em rascunhar meus contos direto no computador, mas acho que o caderno
me dá mais contato, mais verdade, e muito mais sentimento.
Coloquei Hanson para tocar, adoro ouvir Hanson quando estou sentimental.
Pera, não estou sentimental, estou furiosa com um rapaz tagarela que
riu do meu cabelo desgrenhado no vento. Merda, eu não deveria querer ouvir
Hanson.
Como na maioria das vezes, dormi enquanto escrevia e sonhei, sonhei com
o sorriso, o sorriso da estampa da camiseta cinza clara.
*
A noite apareceu com o mesmo clima abafado, mesmo depois de toda a chuva.
-Sofi, tem alguém chamando no portão, vai atender.
Gritou o namorado da minha mãe, que provavelmente estava de shorts, sem
camisa e comendo algo fedido no sofá da sala. Desci as escadas, e fui ver quem
em sã consciência quis sair num domingo anoite pra importunar a vida alheia.
Abri o portão e lá estava, a camiseta cinza clara.
-Sofi, meu Tio me mostrou onde você morava, você esqueceu isso.
Estendeu a mão com uma sacola verde exército. Abri a sacola, meu maço de
cigarros, meu chiclete de canela e a presilha do meu cabelo.
-A, é, muito obrigada, não precisava se incomodar.
-Quem é Sofi, é pra mim manézona?
Enrubesci, típico.
-Meu irmão mais novo, desculpa.
-Tá tranquilo.
-Obrigada, mais uma vez.
-Sofi, é... vou ficar por algum tempo, podemos nos ver mais vezes, é que
não conheço ninguém nas redondezas e meu tio disse que só você e seus irmãos
são mais ou menos da minha idade?
-Melhor não. Tchau.
Não sei se o portão pegou na cara dele, mas fechei com bastante
violência, nem sei o porquê, mas fiquei extremamente nervosa. Alguns dos meus
inúmeros terapeutas da adolescência diziam que eu evitava socializar. E
sinceramente, é provavelmente a coisa mais certa que eles disseram.
-Alguém no mundo quer ser seu amigo mané. Incrível.
-Não enche Felipe.
Subi para o meu quarto, e fiquei revirando aquela sacola verde exército,
era pequena, feita de papel, peguei meu maço se cigarros, abri e traguei um. Na
minha casa ninguém ligava para cheiro de cigarro, afinal até o meu irmão mais
novo, de 14 anos fumava. Acredito que era a única coisa que eu tinha em comum
com a minha família, o vício.
A minha casa é sempre uma bagunça, moro com a minha mãe, 2 irmãos e o
encosto do atual namorado da minha mãe, mas nem da tempo de gostar ou
desgostar, ela sempre troca. Sou a filha do meio, antes de mim tem o Felipe de
14 anos e depois, tem o Ariel de 21. Meus irmãos e eu brigamos o tempo todo,
mas sem eles eu não suportaria mais nem um minuto nesse lugar. Felipe está na
fase da adolescência da qual você sente vontade de esganar a cada palavra, mas
no fundo de toda a rebeldia ele é um menino doce que precisa de atenção, Ariel
é o homem da casa, trabalha e está terminando a faculdade de artes, o que
deixou a minha mãe incrivelmente revoltada, pois, nas palavras dela “todos
nessa maldita casa buscam formações sem futuro”, BINGO!
Meu pai não aguentou a loucura da
minha mãe e largou a gente quando a pegou na cama com o rapaz que dava aula de reforço
de química para o Ariel, na verdade esse foi o ápice, porque me recordo das brigas por causa de toda a bebida que consumia desde
o café da manhã...

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