Sou uma grande mistura de sentimentos, de incertezas, de medos, de sonhos, principalmente de sonhos. Mas me vi em uma situação um pouco estranha, pois, estou sonhando pra que algo não aconteça, estranho não é mesmo?! Sempre sonhei com o amanhã, com objetivos a serem alcançados e agora me vejo em algo completamente oposto. Sonho em retroagir, em voltar no tempo e concertar fatos, em dizer coisas que por medo não disse e hoje estão entaladas, me sufocando de uma forma muito espantosa.
Realmente achei que tinha superado, superado todo esse sentimento um tanto quanto nostálgico e bem assustador que me assombra em dias de chuva, principalmente. A chuva cai suavemente deixando o solo úmido bem devagar, numa delicadeza extraordinária, e sobe aquele aroma de terra molhada, aquele aroma que lembra o campo.
Especialistas comprovaram que nossas memórias são atiçadas não pela visão mas pelo olfato, é realmente eles estavam certos, mais uma vez. Quando senti aquele aroma de terra molhada, memórias infinitas começaram a martelar em minha cabeça e no meu coração, algumas dolorosas, outras muito alegres e outras simplesmente não sei definir qual efeito tem sobre mim.
Como algo inacabado, como um texto sem nexo, uma música sem melodia, um poema sem rima, porém com um bom conteúdo, mas que simplesmente foi deixado de lado por preguiça, falta de criatividade ou até mesmo por comodidade, assim foi a nossa história, abandonamos ela na metade. Encontramos um empecilho, uma pedra, enfrentamos, enfrentamos a primeira a segunda, até mesmo a terceira, mas cansamos, nos acomodamos e simplesmente deixamos a correnteza levar, o que foi um erro. Sempre escutei das pessoas mais experientes: lute por aquilo que te complete e te faça feliz. E eu deixei esvair por meus dedos toda a felicidade que engrandecia meu viver.
Aqui sentada escutando a chuva cair, causando uma nostalgia drasticamente dolorosa no meu ser penso em como fui fraca, fraca e imbecil. Imbecil porque hoje alguém ocupa o meu lugar ao seu lado, o lugar que eu não lutei pra continuar sendo meu e isso me faz uma guerreira frouxa, na verdade, nós só nos tornamos vencedores de uma batalha se decidimos lutar, e eu desisti da luta.
Não me lembro de você todos os dias, fico feliz por isso, pois imagino que daqui alguns anos eu posso pensar em você bem menos do que ainda penso, e isso já é um imenso progresso, mas é quase inevitável não me recordar quando a chuva cai. E é quase burrice desejar que não chova mais, afinal a terra precisa da chuva assim como eu ainda preciso de você.
Ana Rita Pardim

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